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A vida sem muito sexo

mlr12 @ 23:45

Não se preocupe se a sua freqüência está abaixo da
média das pesquisas. Segundo especialistas, boa parte
dos que afirmam fazer várias vezes por semana exagera.

A maioria das pesquisas sobre comportamento sexual apregoa que, no mundo todo, as pessoas têm, em média, duas relações sexuais por semana (os brasileiros, mais animados, teriam três). Há duas maneiras de reagir a essa afirmação:

a) concordar com ela, porque se está "dentro da média" ou acima dela;

b) calar-se resignado, abatido pela certeza de que, enquanto o mundo todo se esbalda sob os lençóis, você é um dos poucos a optar pelo sorvete de chocolate – não antes ou depois de, mas em vez de.

Se o cabisbaixo leitor se encaixa no segundo caso, saiba que há bons motivos para acreditar que está enganado. Especialistas que, por força da profissão, têm de inteirar-se sobre os assuntos de alcova de seus pacientes são unânimes em afirmar que as pessoas têm grande resistência a dizer a verdade quando o assunto é sexo – o que inclui, é claro, o número de vezes que o praticam. Para onze de doze profissionais ouvidos por VEJA – entre psicanalistas, médicos e terapeutas sexuais –, nem o mundo nem os brasileiros se divertem na cama com a freqüência que proclamam. "Há uma larga mitologia no que se refere à freqüência sexual", afirma o psicanalista Renato Mezan.

fototrabalhoblog1.jpg"Há cinco anos, eu não trabalhava, sobrava tempo, e eu e meu marido fazíamos sexo duas vezes por semana. Mas, por causa de alguns problemas que eu enfrentava naquele período, não tinha muito prazer nas relações. Hoje – como eu trabalho, faço faculdade, cuido da casa e do nosso filho – falta tempo, e acabamos só conseguindo namorar no fim de semana. Em compensação, considero que minha vida sexual está melhor do que há cinco anos, quando eu fazia mais sexo, mas sem vontade".
Eliene da Silva Nascimento, 35 anos, bancária

trabalhoblog2.gif O desejo de fazer sexo e a intensidade desse desejo dependem de estímulos e situações que variam ao longo da vida. Na juventude, é normal que a atividade sexual das pessoas esteja em alta: os hormônios estão em efervescência, a curiosidade sexual idem, a oferta de parceiros é maior e tem-se tempo de sobra – embora a falta de experiência no assunto e a precipitação característica da fase muitas vezes acabem por desperdiçar todo o resto. Com a entrada na vida adulta, ganha-se de um lado (aumenta, por exemplo, o conhecimento que se tem do próprio corpo, o que torna o sexo mais prazeroso) e perde-se de outro. O foco se volta para a carreira e, em seguida, para a família e o casamento – que a maioria espera ser monogâmico e que todos desejam longo como, brincam os mais cínicos, uma temporada num campo de trabalhos forçados. De novo, ganha-se na intimidade e perde-se na surpresa e na novidade – alguns dos motores do sexo. Depois de alguns anos, e conforme o casal vai envelhecendo, é inevitável que as noites incandescentes acabem ficando mais espaçadas ou simplesmente virem uma lembrança sem retrato. Pelo menos com os parceiros legitimados pelas leis dos homens e de um certo senhor geralmente representado por um velho de barba branca.

Uma breve história do sexo no Ocidente

Antiguidade (4 000 a.C. ao século V)
Por estar ligado a rituais de fecundidade e dionisíacos (caso das Bacantes), o sexo era visto com naturalidade pelos antigos – embora a liberdade para praticá-lo (com jovens do mesmo sexo, esposas, amantes e escravas) fosse muito maior entre os homens do que entre as mulheres. A imagem do falo, tanto na Grécia quanto em Roma, enfeitava amuletos e decorava fachadas de casas, como símbolo de poder e virilidade.

Idade Média (século V ao XV)
O obscurantismo medieval e o rigor da moral cristã no período impregnavam o sexo de culpa e pecado. Aos que pretendiam salvar sua alma, recomendava-se a abstinência – ou o casamento. Dizia São Paulo: "Se não podem conter-se, casem-se. Melhor casar do que abrasar-se". Mesmo quando praticado com fins reprodutivos, o sexo estava sujeito a tantas regulamentações religiosas (era proibido antes da comunhão, durante a gestação, em determinado período do mês etc.) que sobravam poucos dias para a sua prática autorizada.

Idade Moderna (século XV ao XVIII)
A repressão religiosa se aprofunda até o século XVIII, quando às transformações políticas e sociais provocadas pela Revolução Francesa se soma a degeneração moral conseqüente da miséria e da violência que toma conta das ruas. A libertinagem e a perversão sexual, expressas na literatura por meio de autores como Marquês de Sade, são o reflexo dessa perda de valores. Busca-se incessantemente o prazer, ainda que à custa da dor.

Renascimento (século XIII ao XVI)
A arte torna-se a depositária do erotismo e do desejo, que, na vida real, continuam reprimidos. Os quadros exibem corpos voluptuosos e decotes profundos e a literatura explora os fetiches masculinos ao destacar objetos como lenços, leques e meias femininas. Nos romances, predomina a idéia do "amor-paixão" – a relação cheia de obstáculos e sofrimentos, cuja consumação carnal deve ser punida, como em Tristão e Isolda.

Idade Contemporânea (século XVIII até hoje)
O período que passou pelo puritanismo da era vitoriana e pelas crenças da medicina pré-científica – segundo a qual o sexo "em excesso" e a masturbação podiam conduzir à loucura – viu avançar no século XX a psicanálise e o feminismo e surgir a pílula anticoncepcional. Estava aberto o caminho para a revolução sexual, cujos princípios, como o do "direito ao prazer", ecoam até hoje.

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